quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati

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Terminei hoje a leitura do romance "O Deserto dos Tártaros" do escritor italiano Dino Buzzati. Dizer que o livro é excelente e recomendar a leitura seria simplório, pois acima de tudo, é um texto angustiante que trata de aspectos importantes da vida cotidiana. O texto mexe com o leitor ao abordar os problemas do comodismo que conduz ao hábito e à aceitação de quase tudo que é imposto. A mensagem - se é que deve haver alguma mensagem nos livros - é clara: remete às implicações do tempo e o que fazemos com esta sucessão de anos, dias e horas à nossa disposição. Trata da maneira como lidamos com aquilo que define o que chamamos de vida e tende a explicar o que realmente somos.

No romance um jovem militar é designado para servir em uma fortaleza solitária nas montanhas, um lugar quase esquecido pelo resto do mundo, que em tempos remotos foi local de uma importante defesa contra os tártaros que costumavam chegar pelo deserto que se estendia ao longo do vale. A função do oficial era estar preparado para o dia em que os tártaros voltassem. De cima das muralhas ele examina o deserto imaginando e ansiando pelo dia da batalha, o grande dia em que um fato notável justificará sua vida. Seus olhos não se cansam de vascular o horizonte, mas os tártaros não vêm. O cotidiano transcorre medíocre, o tempo vai passando, mas o soldado não consegue abandonar o forte e mudar sua vida. Continua olhando obstinada e disciplinadamente o deserto, sob o céu silencioso.

Não é um livro sobre a vida militar, mas sobre a vida de todos nós. Confesso que ele me agitou um pouco e me fez considerar várias questões importantes que deixamos de lado por que é simplesmente conveniente manter-se inalterável, mesmo que essa estabilidade não seja lá tão agradável. O romance sacudiu a inércia que me cercava e me levou a refletir sobre a maneira como nos habituamos a tudo. Curiosamente me fez lembrar de uma frase de Crime e Castigo, em que um dos personagens diz ao outro: "O homem é patife. Acostuma-se a tudo."

Tão bom quanto o livro é o prefácio do cineasta brasileiro Ugo Giorgetti, pois traduz toda a essência do livro ao dizer "Ou não é exatamente isso que diz a publicidade, a televisão, enfim, o pensamento médio reinante: seja disciplinado e trabalhador. Não mude sua vida. Trabalhe infatigavelmente que um dia algo maravilhoso vai acontecer. Algo glorioso, que vai justificar sua existência, não uma batalha, claro, mas talvez uma linda mulher inatingível, uma esperada promoção, uma casa cercada de árvores, ou muito dinheiro. Só que isso virá mais adiante. Cada vez mais adiante. Até que um dia nos damos conta que fizemos a aposta errada. Os tártaros não vieram".

Estaríamos à espera dos tártaros?

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